Do Mundo à Carteira

Tese 02 · Brasil · Consumo

Famílias no limite, varejo sem margem: por que emprego forte não salva o consumo

Desemprego baixo, mas renda comprometida em nível recorde, margens espremidas e concorrência estrangeira sem imposto federal: por que o varejo sente primeiro e por mais tempo.

Por Pedro Benevides · 7 min de leitura

Uma contradição que ficou maior

Mercado de trabalho 5,3% de desocupação no trimestre encerrado em julho de 2026 (IBGE/PNAD)
Orçamento das famílias 28,85% da renda comprometida com dívidas, o maior nível da série iniciada em 2005

O mercado de trabalho continua forte. O orçamento das famílias, por outro lado, nunca esteve tão pressionado.

Indicador (Banco Central)Jun/2025Último dadoLeitura
Endividamento / renda 12 meses48,82%49,75% jun/26Perto do pico da série (49,92% em jan/26)
Endividamento sem crédito imobiliário30,53%30,83% jun/26Estável em nível alto
Comprometimento de renda com a dívida (com ajuste sazonal)27,17%28,85% jun/26Maior da série, iniciada em 2005
Comprometimento sem crédito imobiliário25,09%26,60% jun/26Também recorde
Inadimplência da carteira PF4,41%5,81% jul/26Maior desde o início da série (2011)*
Juro médio do crédito livre PFn/d60,0% a.a. jul/26Cheque especial a 137% a.a.

*Desde janeiro de 2025 as regras contábeis de crédito mudaram (Resolução CMN 4.966). Por isso, a comparação com anos anteriores deve ser feita com cautela. A alta dos últimos 12 meses, porém, é clara.

Esses dados saem com cerca de três meses de defasagem. O que importa é a direção, e todos os indicadores apontam para o mesmo lado.

O aperto já chegou ao consumo

Uma família que compromete quase 29% da renda com prestações não precisa ficar inadimplente para mudar de comportamento. Ela adia a troca do carro, a reforma e a compra da geladeira nova. Os dados de 2026 já mostram esse movimento:

−0,4%

Consumo das famílias

Queda no 2º trimestre em relação ao 1º (IBGE, Contas Nacionais). Na comparação anual, cresceu apenas 0,5%.

0,0%

PIB do comércio

Estável no trimestre. O PIB total cresceu 2,0% em 12 meses, puxado pela indústria extrativa (+12%) e pela agropecuária (+6,8%). O crescimento atual vem do petróleo e do campo, e não do consumidor.

+1,8%

Vendas do varejo

Em volume, de janeiro a julho, com queda de 0,8% em julho sobre junho (IBGE/PMC). A receita nominal subiu 4,8%, pouco acima da inflação (IPCA de 4,22% em 12 meses).

15% 13,75% 13,50% 12% Mar/26 Set/26 Fim de 2026 (Focus) 2027 (Focus)
Selic: o corte começou, mas o juro real ainda passa de 9% ao ano. Pontos vazados são projeções do Focus.

O Banco Central começou a cortar juros: a Selic caiu de 15% para 13,75% entre março e setembro. O Focus projeta 13,50% no fim de 2026 e 12% em 2027. Mesmo assim, o juro real passa de 9% ao ano, e o corte só alivia o orçamento das famílias com atraso, à medida que a dívida antiga vence e é renovada.

Margens apertadas e alavancagem: o que mostram os balanços

O 2º trimestre de 2026 mostrou o efeito dos juros altos sobre empresas de margem baixa:

Magazine Luiza

~81% do EBITDA foi para despesas financeiras

Receita caiu 2,6%, o EBITDA ajustado foi de R$ 709 milhões (margem de 8%) e o resultado financeiro foi negativo em R$ 572 milhões (+15,5%). A empresa teve prejuízo de R$ 72,5 milhões.

Casas Bahia

Patrimônio líquido negativo em R$ 8,1 bi

Receita de R$ 7,0 bilhões, margem EBITDA de 7,4% (-0,9 p.p.), prejuízo ajustado de R$ 978 milhões (+76%) e prejuízo contábil de R$ 10,1 bilhões, com baixa de R$ 5,7 bilhões em créditos fiscais. 298 lojas foram fechadas em 12 meses.

Lojas Renner

Guidance de receita cortado para 4% a 8%

Mesmo a varejista mais rentável do grupo cresceu só 1%. A empresa reduziu o guidance de 2026 de cerca de 9% para 4% a 8%, e o resultado de serviços financeiros caiu 22%.

Marisa Casas Bahia Americanas GPA Guararapes 19,0% 8,3% 7,1% 6,5% 5,9%
Despesa financeira como parcela da receita líquida (Málaga & Associados, via InfoMoney). Em um setor com margem EBITDA de um dígito, isso deixa quase nada para o acionista.
2.466 empresas em recuperação judicial em abril de 2026, recorde no Brasil (Serasa Experian). O comércio respondeu por 21,7% dos pedidos de 2025.

Em paralelo, a concorrência estrangeira ficou mais barata

Em 13 de maio de 2026, a MP 1.357 zerou de novo o imposto federal de importação sobre compras de até US$ 50 (a chamada "taxa das blusinhas"). O Congresso aprovou a medida em 3 de setembro. Nessas compras, hoje só incide o ICMS estadual. O efeito foi imediato:

15,2 mi 26,5 mi Ago/2025 Ago/2026
Encomendas internacionais por mês: +74% em um ano. De junho a agosto, a alta foi de 67%.
  • Arrecadação: o governo estima perder R$ 1,94 bilhão em 2026, R$ 3,54 bilhões em 2027 e R$ 4,24 bilhões em 2028.
  • Indústria têxtil: a ABIT relata mais de 13 mil empregos formais perdidos até junho. Em julho, a produção têxtil caiu 6,8% e a de confecção, 8,2%.
  • Escala: em 2024, a Shopee movimentou mais de R$ 70 bilhões no Brasil e a Shein, mais de R$ 15 bilhões (BTG Pactual). A importação total de bens e serviços cresceu 5,5% no 2º trimestre, quase o triplo do PIB.

Em relação ao varejo total, o volume das compras internacionais ainda é pequeno. O problema é que ele se concentra em vestuário, eletrônicos e itens de baixo valor, exatamente as categorias das varejistas listadas.

Empresa brasileira
  • Tributação cheia
  • Custo de capital de 14%
  • Juros ao consumidor de 60% ao ano
Concorrente estrangeira
  • Imposto federal zero

O que isso significa para o PIB e para o país

O consumo das famílias representa 63% do PIB, e o comércio, 11,3% do valor adicionado (IBGE, últimos quatro trimestres). Uma desaceleração de 1 ponto percentual no consumo tira, mecanicamente, cerca de 0,6 p.p. do crescimento, antes de qualquer compensação. Por isso o mercado projeta PIB de 1,88% em 2026 e 1,43% em 2027 (Focus, 21/09), e o crescimento depende cada vez mais de setores que empregam pouco, como petróleo e agro.

Para o país, isso significa um crescimento menos distribuído. Com consumo interno fraco e uma parte maior da demanda indo para produtos importados, os efeitos aparecem no emprego do comércio e da indústria têxtil, na arrecadação de ICMS dos estados e na qualidade do crédito dos bancos.

Não prevemos recessão: o mercado de trabalho ainda sustenta a renda. O cenário mais provável é um período longo de consumo fraco, em que o varejo sente primeiro e por mais tempo.

Por que não gostamos de varejo, em números

CDI LREN3 MGLU3 BHIA3 +80% −51% −94% −99%
Cinco anos, de set/21 a set/26: CDI contra as ações do varejo citadas.

Isso não quer dizer que o varejo nunca mais será investível. Voltaríamos a olhar o setor com uma combinação de sinais:

Hoje, nenhum desses sinais está presente.

Enquanto isso, o varejo segue como aquela festa em que o último apaga a luz. O problema é que a lâmpada foi comprada na Temu.

Pedro Benevides

Pedro Benevides

Fundador e head de investimentos da 4FG · Gestor CGA · Administrador de carteiras CVM

Fontes

Banco Central do Brasil (séries SGS 29034, 29035, 29037, 29038, 21084, 20740, 432); IBGE (PMC, Contas Nacionais Trimestrais, PNAD Contínua); Boletim Focus de 21/09/2026; balanços do 2T26 de Magazine Luiza, Casas Bahia e Lojas Renner; Serasa Experian; Receita Federal/ABIT; BTG Pactual; Málaga & Associados, via InfoMoney.

Conteúdo informativo. Decisões de investimento dependem dos objetivos, horizonte e perfil de risco de cada investidor. Não constitui oferta, recomendação ou solicitação de investimento.

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