O problema das explicações genéricas
Quando um banco central aumenta juros, é comum ouvir uma interpretação simples: juros altos prejudicam ações. Essa frase é útil como atalho, mas insuficiente para tomar decisões de investimento.
A decisão do Federal Reserve (Fed), banco central dos Estados Unidos, recoloca em evidência uma tese que já vínhamos acompanhando: os efeitos de um ambiente de juros elevados são muito diferentes entre setores.
Por que o "efeito médio" engana
Juros mais altos afetam as empresas por pelo menos três canais:
Custo da dívida
Quanto a empresa paga para se financiar ou rolar o que já deve.
Valor presente dos lucros futuros
Empresas cujo valor depende de lucros distantes, como muitas de tecnologia em crescimento, são mais sensíveis ao aumento da taxa de desconto.
Receita financeira
Empresas que carregam grandes volumes de caixa ou aplicações passam a ganhar mais sobre esses recursos.
Um índice de bolsa mistura empresas que estão em lados opostos desses canais. Por isso a média esconde mais do que revela.
Por que bancos e seguradoras podem reagir de outro modo
Bancos
Podem se beneficiar quando conseguem ampliar a margem entre as taxas cobradas nos empréstimos e o custo de captação. Isso depende de quão rápido os depósitos passam a exigir remuneração maior. Bancos com base de depósitos estável e barata tendem a capturar mais desse ganho.
Seguradoras
Recebem os prêmios antes de pagar muitos dos sinistros e mantêm esse volume aplicado, geralmente em renda fixa. Quando a renda fixa oferece retornos maiores, o resultado financeiro dessas reservas pode melhorar, e o benefício tende a aparecer de forma gradual, conforme a carteira é reinvestida a taxas mais altas.
Empresas menores e mais dependentes de dívida
Tendem a sofrer mais. Negócios com financiamento a taxas variáveis, vencimentos próximos ou pouco acesso ao mercado de capitais ficam mais expostos ao aumento do custo do dinheiro.
Quando a vantagem pode virar risco
Essa não é uma tese de mão única. Há um risco essencial nessa leitura: juros altos por tempo suficiente podem deteriorar a qualidade do crédito. Aquilo que inicialmente melhora margens dos bancos também pode aumentar inadimplência e perdas se a economia e os devedores começarem a sentir demais o aperto.
Um segundo risco, específico de bancos e seguradoras
Títulos comprados quando os juros eram baixos perdem valor de mercado quando os juros sobem. Se a instituição precisar vendê-los antes do vencimento, a perda se realiza.
Esse contraponto impede uma conclusão simplista. O objetivo não é afirmar que bancos e seguradoras sempre ganham com juros altos. É acompanhar a sequência:
- Nível de juros
- Margem financeira
- Custo de captação
- Crescimento do crédito
- Inadimplência
- Qualidade dos ativos
O que acompanhar
- Margem financeira líquida divulgada nos resultados trimestrais dos bancos
- Custo e comportamento dos depósitos
- Provisões para perdas e inadimplência, principalmente em crédito ao consumidor e imobiliário comercial
- Resultado financeiro das seguradoras e duração de suas carteiras
- Sinalização do Fed sobre os próximos passos
O que isso significa para a diversificação
Para quem investe internacionalmente, esse tipo de leitura também ajuda a pensar diversificação. Uma carteira de ações americanas concentrada em tecnologia reage de maneira diferente de uma carteira que inclui setores financeiros, saúde, energia ou empresas com balanços menos dependentes de refinanciamento.
A macroeconomia define o ambiente, mas não determina todos os resultados da mesma maneira. O trabalho de alocação começa justamente quando saímos da média e entendemos quais empresas são favorecidas, quais são pressionadas e em que momento essa relação pode mudar.
Pedro Benevides
Fundador e head de investimentos da 4FG · Gestor CGA · Administrador de carteiras CVM
Conteúdo informativo. Decisões de investimento dependem dos objetivos, horizonte e perfil de risco de cada investidor. Não constitui oferta, recomendação ou solicitação de investimento.