Do Mundo à Carteira

Tese 01 · Inteligência artificial

Quem está financiando a corrida da inteligência artificial?

Data centers financiados cada vez mais com dívida, infraestrutura que envelhece rápido e um vencedor incerto. Onde estão os riscos e por que, hoje, vale mais vender a pá.

Por Pedro Benevides · 6 min de leitura

A infraestrutura por trás da IA

Quando se fala em inteligência artificial, a conversa costuma começar por modelos, chips e grandes empresas de tecnologia. Mas existe uma camada menos visível e cada vez mais importante: a infraestrutura física necessária para sustentar esse crescimento e, principalmente, a forma como ela está sendo financiada.

  • Terrenos
  • Energia
  • Equipamentos
  • Refrigeração
  • Transmissão
  • Computação em escala
O que um data center exige antes de processar o primeiro dado.

O volume de investimento necessário é tão alto que mesmo grandes empresas passaram a combinar caixa próprio com emissão de dívida e estruturas de financiamento fora do balanço.

O que o BIS está observando

Em março de 2026, o Bank for International Settlements (BIS) chamou atenção justamente para essa mudança. O BIS é uma organização internacional sediada na Suíça que funciona como fórum de cooperação entre bancos centrais e produz pesquisas sobre o sistema financeiro global.

> US$ 100 bi em emissões de títulos corporativos dos grandes grupos de tecnologia em 2025, segundo o BIS

Paralelamente, aumentou o uso de veículos dedicados e private credit para financiar data centers, criando novas conexões entre empresas de tecnologia, investidores não bancários, seguradoras e bancos.

Empresas de tecnologia Títulos, veículos dedicados e private credit Não bancários Seguradoras Bancos
O financiamento dos data centers cria novas conexões dentro do sistema financeiro.

Um jogo em que o vencedor não está garantido

Existe uma assimetria pouco discutida. Com o tempo, os modelos de linguagem tendem a se tornar bens substituíveis. Um avanço de hoje é igualado por concorrentes em meses e depois aparece em modelos abertos quase de graça. A empresa que quer liderar precisa gastar volumes enormes em capex só para continuar no jogo, e mesmo assim não tem garantia de vitória.

Para o investidor, a pergunta é direta: o que acontece com o capital alocado se o cavalo escolhido não for o vencedor?

A dívida emitida para construir a infraestrutura continua lá, com ou sem vitória.

Quando a infraestrutura envelhece mais rápido que a conta

Pressionada pela velocidade, a indústria construiu antes de dominar tudo o que estava construindo, e está aprendendo com problemas que não previa:

419

Falhas de hardware em escala

No treinamento do Llama 3, a Meta registrou 419 interrupções inesperadas em 54 dias, em um cluster de 16.384 GPUs H100. Foi cerca de uma falha a cada três horas, e aproximadamente metade delas veio das GPUs e da memória HBM3.

meses

Refrigeração e montagem

Os racks GB200 da Nvidia atrasaram meses em 2025 por superaquecimento e vazamentos no sistema de refrigeração líquida. Segundo um analista, a cadeia de suprimentos "não teve tempo suficiente para estar pronta".

6 → 5 anos

Vida útil contábil em revisão

A Amazon estendeu a vida útil dos servidores duas vezes, em 2022 e 2024. Em 2025, reverteu parte disso, de 6 para 5 anos, citando o ritmo da IA. O impacto foi de cerca de US$ 1 bilhão a menos no lucro líquido.

30–50%

Obras atrasando

Levantamento da Currence de julho de 2026 estima que de 30% a 50% da capacidade de data centers prevista para 2026 deve atrasar. Os motivos são energia, mão de obra e resistência local.

Como isso entra no VPL? Por três caminhos

  1. Uma vida útil menor antecipa o capex de reposição e reduz o valor terminal.
  2. Um tempo parado maior reduz a utilização e, com ela, a receita.
  3. Um atraso empurra os fluxos de caixa para frente. Com custo de capital de 10%, um ano de atraso já reduz em cerca de 9% o valor presente dos fluxos.
100 ≈ 91 Sem atraso 1 ano de atraso
Valor presente dos mesmos fluxos, a custo de capital de 10%.

Se as projeções de payback não trazem essas premissas de forma explícita, o investidor deveria fazer a pergunta.

China: o dragão que joga outro jogo

O modelo chinês é diferente do americano. Os modelos são abertos, o preço por token é muito baixo e há pouca transparência sobre custos, subsídios e dados de treinamento.

~80% das startups que chegam à a16z usando modelos abertos rodam modelos chineses, segundo Martin Casado, sócio do fundo (2025)
~1% ~13% Início de 2025 Fim de 2025
Modelos abertos chineses no volume semanal de tokens (OpenRouter e a16z, mais de 100 trilhões de tokens).

Quando parte relevante da inovação americana roda sobre tecnologia chinesa, algo não fecha. Pode ser na tese de retorno das empresas que gastam centenas de bilhões em modelos fechados. Pode ser no risco regulatório e geopolítico de quem depende desses modelos.

Monitorar esse player é difícil, porque os dados são pouco confiáveis. Mesmo assim, é possível acompanhar sinais indiretos:

O vencedor pode estar na sombra.

Por que financiamento também é risco de IA

Isso não significa que exista uma crise de crédito em curso. A tese que monitoramos parte justamente do contrário: não há, até aqui, um evento de crédito confirmado que invalide o crescimento do setor. O ponto é observar um risco que pode passar despercebido quando toda a atenção está concentrada na demanda por IA.

O sistema financeiro consegue acompanhar o ritmo de expansão esperado?

Alguns investimentos podem ser adiados, mesmo com a demanda tecnológica forte, se:

  • o custo do dinheiro subir;
  • projetos passarem a exigir retornos maiores;
  • investidores ficarem mais seletivos.

E aí, como se posicionar?

A IA tende a ser a nova fronteira de eficiência para empresas e economias, e boa parte do dinheiro do futuro deve passar por esse setor. O problema é que são centenas de candidatos, a informação é difusa e poucos devem capturar a maior parte do valor.

Em garimpo de ouro, quem ganha dinheiro com mais consistência é quem vende a pá.

Anos atrás, quando entramos nesse tema, tentar acertar o olho da mosca, ou seja, escolher cedo quem lideraria a corrida, fazia sentido. Os preços ainda não embutiam o sucesso e o capex necessário para competir era outro. Hoje o cenário mudou. Os modelos tendem a virar commodity, a conta de capex só cresce e o vencedor continua incerto. Com isso, a relação entre risco e retorno de apostar em um único vencedor piorou.

A corrida dos modelos Centenas de candidatos, capex crescente, vencedor incerto
Quem vende a pá · recebe independentemente de quem vence
  • Energia
  • Refrigeração
  • Equipamentos de rede
  • Construção e manutenção de data centers
  • Empresas que usam a IA para ganhar eficiência

Mesmo entre os vendedores de pá, vale separar os casos. Um fornecedor que cresce com a própria dívida ou depende de poucos compradores muito alavancados carrega parte do risco de financiamento descrito acima.

A melhor pá é aquela que o cliente paga

  • À vista
  • Com contrato longo
  • Com contraparte sólida

Por isso, acompanhar de perto os sinais de financiamento continua sendo essencial: é ali que a tese pode quebrar primeiro.

O que isso pode mudar na carteira

Para o investidor, isso muda a maneira de enxergar a cadeia de IA. O risco não está apenas na valorização das ações das grandes empresas. Ele pode aparecer também em:

Esta é uma boa ilustração de como trabalhamos uma tese de investimento: não basta identificar uma tendência forte. É preciso procurar também onde estão seus pontos de fragilidade, quais sinais poderiam mudar o cenário e por quais caminhos um problema localizado poderia chegar a outros ativos da carteira.

A inteligência artificial pode continuar sendo uma transformação estrutural. Isso não elimina a necessidade de perguntar quem financia essa transformação, a que custo e com quais riscos.

Pedro Benevides

Pedro Benevides

Fundador e head de investimentos da 4FG · Gestor CGA · Administrador de carteiras CVM

Fontes

Conteúdo de caráter exclusivamente informativo e educacional. Não constitui oferta, recomendação ou solicitação de investimento. Investimentos envolvem riscos, e rentabilidade passada não garante rentabilidade futura.

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